

Bertolt Brecht – para debuxar uma biografia em largas pinceladas – nasceu em Augsburgo, na Baviera. Interrompeu o curso de Medicina em Munique para servir como enfermeiro na I Guerra Mundial. Em 1918, com vinte anos de idade, escreveu Baal. Na peça, Brecht já penetra fundo na natureza crua do homem. Baal – influenciada pelo expressionismo da época – já caracteriza tangencialmente o que veio a ser toda a intensa produção do vigoroso autor dos anos seguintes. A peça não apresentava ainda, é verdade, a sobriedade crítica – muitas vezes disfarçada em ironia – que veio a identificar esse humanista tão diferente do que a boa sociedade alemã considerava um escritor: Brecht não tinha a diplomacia meio pachola de um Thomas Mann, os requintes quase perfumados – ainda que grandiosos – de Rilke, nem a soberana majestosidade de um Hofmannstahl. Mas isso é de superfície e aparência. Na essência, Brecht foi um dos mais importantes autores do século vinte: é dos teatrólogos mais encenados no mundo e dos mais respeitados teóricos do teatro, com o seu conhecido “efeito de estranhamento” (Verfremdungseffekt) e a educação do espectador obrigado a assumir posição crítica ao ter o poder de julgar a ação representada.
Em 1924 Brecht mudou-se para Berlim, onde foi assistente dos diretores Max Reinhardt e Erwin Piscator. Em 1928 a encenação da Ópera dos três vinténs alçou Brecht à fama. A peça é, talvez, a mais conhecida das suas obras e já mostra a crítica e as teorias teatrais que Brecht veio a desenvolver efetivamente mais tarde.

Brecht foi um escritor multifacetado, mas sempre manteve uma unidade básica, através da qual permanece atual ainda hoje. Sua obra abarca o teatro, a poesia, o romance, o ensaio, a crítica teatral e o aforismo. O autor inovou ao utilizar temas do mundo americano e da nova indústria de produção serial, foi audacioso no ritmo – e na secura – de sua lírica e inovou com as Kabarettchansone da época da inflação galopante da República de Weimar e com os songs americanos tão característicos a partir d’A Ópera dos três vinténs.
A Ópera dos Três Vinténs é, aliás, um manifesto da perenidade brechtiana, da validade e atualidade de sua obra. Em síntese, a peça trata de um bando de mendigos que fundam uma empresa capitalista a fim de melhor competir no mercado. Ora, a ironia é muita, cheia de severidade crítica e alcança aspectos econômicos dos mais atuais.
Para seguir exemplando – e não fazer da Ópera dos três vinténs um único achado fortuito de atualidade –, tome-se A vida de Galileu. A peça tem tudo a ver com as grandes descobertas da ciência na virada do milênio e ainda pontua muito bem a situação mui atual de um grande pesquisador obrigado a lançar mão de aulas particulares, abandonando suas pesquisas, porque o governo não lhe proporciona sequer o suficiente para o de comer.
Seguindo a trilha da obra brechtiana, A boa alma de Setsuan apresenta uma visão atualíssima da corrupção generalizada que reina no sistema: as qualidades da prostituta Shen Te, única alma boa encontrada pelos deuses, só lhe trazem desvantagens e exploração na ordem social vigente. Quando ela se metamorfoseia, fingindo ser um primo distante, de tino comercial, acaba por se adaptar à situação, passando a ser também uma exploradora capitalista. | ![]() |
A Santa Joana dos Matadouros, com seu clima de sarcasmo generalizado, é outra obra que testemunha a atualidade de Brecht. Potente na crítica, a peça mostra a sujeição de absolutamente tudo ao motivo econômico e não poderia ser mais atual, na apresentação fiel das emoções do mercado e das finanças.
Basta para referendar “validade” e “permanência”?
A obra de Brecht é um testemunho do arrojo combativo da arte e por isso é temida, de modo que Brecht é – ao mesmo tempo – dos autores que mais vezes teve, se não a sentença de morte decretada, pelo menos a vida – e falo de atualidade e validade – posta em questão.
Sempre que Brecht é tachado de utópico; que é vinculado ao colapso do “socialismo realmente existente” e – argumentos mais recentes – que dizem que as únicas obras de sua produção que não estão ultrapassadas são as primeiras peças – Baal e Tambores na noite –, por serem as únicas que não possuem conteúdo “político” nítido; e sempre que dissociam (porque não conhecem) a obra teatral de Brecht de sua obra poética, estão buscando, de sorrate, estratégias e brechas para em seguida “matá-lo” mais facilmente.
Analisando com seriedade a obra brechtiana – coisa que os “assassinos” de Brecht jamais fizeram – vê-se de cara que o autor será sempre atual ou, pelo menos – e isso talvez equivalha a sempre – enquanto houver a exploração do homem pelo homem, a injustiça social, a miséria e a violência do poder...
A poesia de Brecht tem forte conteúdo crítico, ao contrário do que muitas vezes tentam insinuar, especulando a referida dissociação entre o Brecht dramaturgo e o Brecht poeta. Os exemplos – poético-epigramáticos – traduzidos nos capítulos anteriores apenas referendam a combatividade da lírica de Brecht. A poesia abaixo – uma referência direta a Hitler – confirma de maneira ainda mais clara a unidade combativa da obra de Brecht:
Lutam em meu interior |
O entusiasmo pelas macieiras em flor |
E a aversão ante os discursos do pintor |
Mas só a segunda |
Me obriga ao lavor. |
Quem quer ser ouvido no furacão tem de se expressar em voz alta e brevemente, e Brecht sabia disso. Os “pintores”, mais cordeiros hoje, continuam aí. Se os atuais trovejam tanto e de maneira tão unívoca e hegemônica, Brecht é uma voz dissonante, que mostra que na moeda do mundo ainda existe um outro lado. Com sua obra, Brecht fez dos versos de Heine – de quem é parente na crítica, um século depois – a sua missão, plena de objetividade, dessacralização e luta:
Uma canção nova, uma canção melhor |
Amigos, eu quero vos cantar |
Nós queremos, já aqui na terra |
O Reino dos Céus levantar. |
Queremos ser felizes cá na terra |
Não queremos mais ser padecentes |
A barriga vagabunda não irá dissipar |
O que conseguem as mãos diligentes. |
Eia, pois, o tributo ao último dos combatentes da arte, alguém que, conforme disse Maiakóvski – e a citação também não vai gratuita, pois o parentesco é muito e a circunstância adequada (veja-se as cobranças de atualidade, validade estética, etc...) –, sabia da missão dos poetas:
Mas eu afirmo
(e sei
que meu verso não mente)
no meio
dos atuais
traficantes e finórios
eu estarei
– sozinho! –
devedor insolvente.
A nossa dívida
é uivar
com o verso,
entre a névoa burguesa,
boca brônzea de sirene.
O poeta
é o eterno
devedor do universo
e paga
em dor
porcentagens
de pena.1
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(Extraído de Marcelo Backes, A arte do combate, Boitempo Editorial, São Paulo : 2003, p. 261-267)
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1 De "Conversa sobre poesia com o fiscal de rendas”, tradução de Augusto de Campos. O trecho de Heine (Deutschland, ein Wintermärchen), citado anteriormente, e o poema de Brecht, mais anteriormente ainda, foram traduzidos por mim, Marcelo Backes.
Backes, Marcelo. A arte do combate. São Paulo : Boitempo, 2003. 367 p.